Nada mais educacional do que tratarmos de questões reais, vivida por pessoas reais, de carne e osso, assim como eu e, assim como você.
Quantos novos investidores estão enfrentando uma importante questão: os investimentos que não param de se desvalorizar.
Surgem inúmeras dúvidas, questionamentos e conflitos internos. O que devo fazer? Será que estou fazendo certo? Os ativos que tenho em carteira são de “qualidade”, devo comprar mais? Estou perdendo para o Ibovespa, qual a dica para reverter isso?
Estas são apenas algumas dúvidas que foram debatidas na comunidade do SaldoZero — certamente poderíamos exemplificar muitas outras. A propósito, abrindo um parêntese, se você ainda não faz parte, fica o convite para participar da comunidade. Tenho certeza que irá agregar muito valor.
Mas, a questão central é que, esse tipo de dúvida é extremamente comum. E, vejo a oportunidade de trazer uma essência do que você, como investidor, poderia estar observando para que a segurança se sobreponha à insegurança.
Portanto hoje, quero compartilhar um apanhado geral do que foi abordado na comunidade. Espero que esse texto possa trazer questões que enalteçam sua trajetória e suas qualidades como investidor.
Composição de carteira macro
Quantas pessoas começam a investir sem terem planejado a composição macro de sua carteira de investimentos?
Quando cito composição macro, falo não somente sobre quantos por cento ter em cada classe de ativos: renda fixa, renda variável e etc. Falo sobre como essas classes irão — ou deverão — se comportar em diferentes cenários econômicos.
Vamos pensar o seguinte: em um país como o Brasil, com tantas incertezas econômicas, guerras partidárias — e entre poderes —, aonde o moderno convive com o arcaico, aonde a inclusão convive com a discriminação e assim por diante, quem ousaria a prever qual o futuro econômico e social para daqui 5, 10 ou mais anos?
A resposta é que, muitos ousam prever, mas ninguém tem a capacidade real de precisar esse futuro, que, de veras, é incerto.
É nesse sentido que temos que ter uma carteira de investimentos que nos permita independer de Taxa Selic, independer de Governo, independer de guerras políticas e assim por diante.
E isto é possível? Sim! Por meio de uma carteira Antifrágil. Estar Antifrágil é mais do que estar preparado para as incertezas, mas é crescer com elas, é crescer com o caos, independentemente do cenário econômico.
Entenda:
- Se, na alta da Taxa Selic temos todos os pilares de nossa carteira se desvalorizando, estamos frágeis;
- Se, no descompasso econômico temos todos os pilares se desvalorizando, estamos frágeis;
- Se, em uma crise mundial temos todos os pilares se desvalorizando, estamos frágeis.
- Se, na inflação temos nossa carteira prejudicada em demasia, idem;
- E assim por diante.
É, portanto que, montamos uma carteira pensando em sempre — ou na maioria das vezes —ter um pilar — uma parte dela — se valorizando. É esse pilar que valoriza que nos permite compramos mais de pilares que se desvalorizem.
Troque o desvalorizado por descontado
E, puxando um gancho, temos que pensar o seguinte: trocar a palavra desvalorizado por descontado. Seja em fundos imobiliários, seja em ações ou qualquer outro tipo de ativo.
Partindo do pressuposto que temos ativos de qualidade em nossa carteira, não haveriam motivos de nos preocuparmos com suas quedas de preço. Para aquilo que se tem qualidade, o melhor é compra-lo com desconto, e não o contrário.
Alguém ficaria triste em comprar o Iphone do lançamento com 50% de desconto? Alguém viraria as costas e fugiria da loja caso o vendedor lhe dissesse que esse mesmo Iphone está há 8 meses se desvalorizando? Óbvio que não.
Mas, principalmente na bolsa, vejo pessoas fazendo aportes recorrentes, comprando o primeiro “Iphone” e torcendo para que ele dobre de preço logo em seguida. É aquela vontade de poder comprar o aparelho pelo dobro do preço no mês seguinte. É ótimo comprar caro! É uma alusão sarcástica, obviamente.
Prefira qualidade
Por que temos um comportamento invertido na Bolsa? Por que ao invés de ficar satisfeito em poder comprar aquele ativo mais barato, ficamos extremamente apreensivos e preocupados?
Porque, geralmente, investimos em algo que não sabemos se realmente tem qualidade e se realmente tem valor.
Investimos em algo porque vimos alguém fazendo o mesmo. Investimos em algo, porque alguém nos disse que era bom. Investimos em algo porque estamos simplesmente focados em comprar barato e vender mais caro em um espaço curto de tempo. É o típico comportamento que faz muita gente perder dinheiro e se desmotivar com a Bolsa.
Vejo muita gente evitando companhias já consolidadas e com ROE de 10, 20 30 ou mais porcento — porque em tese se valorizam a passos menos largos — para optar por companhias especulativas, com baixos índices de lucratividade e rentabilidade — algumas vezes dando prejuízo — somente pela possibilidade de acertar aquela tacada que vai lhe deixar “rico”.
Isso explica a aversão as quedas. Investem com cabeça especulativa, quando na verdade, a cabeça de sócio e de dono é completamente diferente.
O proprietário de uma empresa não está preocupado com quanto o vizinho está avaliando seu negócio, mas está preocupado com quanto seu negócio rentabiliza seu capital. Se a empresa é extremamente rentável e lucrativa, se gera retornos interessante aos sócios, quem é que vai querer se desfazer dela? O objetivo na verdade é poder aumentar sua posição na companhia e, para isso, nada melhor que poder comprar a maior parte pelo menor preço possível.
Esqueça comprar “barato” para fazer preço médio
E se, o negócio simplesmente se desvaloriza, vamos comprar mais só para baixar o preço médio (PM)? De maneira alguma.
Esqueçamos isso. A ideia de comprar mais barato simplesmente para baixar o PM não faz o mínimo sentido. Um sócio não irá aumentar posição em uma companhia, somente porque ficou mais barata, se ele sabe que a empresa é ruim.
Vamos comprar mais se, a empresa continuar lucrativa e rentável, se ficou mais descontada e, se a composição de nossa carteira estiver acusando a necessidade de reforçarmos posição. Em outras palavras, se o preço ficou menor e, se o valor da companhia se manteve — ou aumentou.
E, novamente, voltamos ao tema: qualidade do ativo.
A grama do vizinho é sempre mais verde
Há uma outra questão envolvendo o mercado em geral. A comparação de rentabilidade à índices de mercado.
De maneira mais enfática: comparar nossa rentabilidade ao Ibovespa. Qual o motivo disso?
Comparar nossa rentabilidade ao Ibov, é bom? É, claro! Dá um orgulho danado — se estivermos superando. Mas, superar o Ibov não garantirá que sua carteira se provou ao tempo, ou seja, que ela é realmente Antifrágil.
A carteira só se provará no tempo após uma boa crise — ou algumas. E disso eu posso falar! E, como sempre digo nos vídeos da carteira pública: rentabilidades de curto e médio prazo não garantem rentabilidade de longo prazo.
Outro motivo que não faz sentido comparar ao índice. O Ibovespa é concentrado em commodities, isso quer dizer que, não representa a economia em sua totalidade. As maiores companhias, PETR e VALE por exemplo possuem um peso muito grande.
Para quem investe em small caps, qual o sentido da comparação? É comparar amoras com abacaxi — no sabor e no tamanho.
De qualquer maneira, se a preocupação é não ficar atrás do índice, a solução é muito simples: basta ter o ETF BOVA11 em carteira e nada mais. Mesmo assim, isso não resolveria o problema do investidor. Essa opção não elimina o risco sistêmico (da economia).
O segredo não está na rentabilidade, está no longo prazo
Muita gente investe em ativos especulativos — ou da moda —, esperando “aquela” valorização de 100% em poucos meses — lembremos do Iphone.
Mas, outra questão que deve ser ponderada: é essa rentabilidade, de 100% ao ano, necessária para que seja atingida a liberdade financeira ou, uma aposentadoria mais digna?
Muitas vezes nossa necessidade não passa de um mero 1% ao mês — que diga-se de passagem, é um excelente retorno se for consistente para o longo prazo. Nesse sentido, não seria melhor optar por ativos menos especulativos, ou seja, mais perenes, de maior qualidade e que vão aumentar as chances de você chegar vivo ao seu objetivo?
Warren Buffett, com uma rentabilidade média anual de 19,75% conquistou a maior parte de sua riqueza após os 50 anos.
Use os investimentos como veículos para alcançar seus objetivos. Como qualquer veículo, dirigir sem rumo nos fará chegar a “lugar qualquer”, lugares que nem sempre é aquele que esperávamos.
Reflitamos…
Resumindo o que acredito ser a essência:
- Tenha uma composição macro Antifrágil;
- Tenha ativos de real qualidade — não sejamos apenas sócio torcedor;
- Se temos ativos ruins na carteira, não há porque reduzir PM;
- Desvalorização pode significar desconto;
- Esqueçamos o Ibovespa;
- Foque na rentabilidade necessária para alcançar suas metas e seus objetivos. Não precisa acelerar, basta não parar.
Espero ter agregado conhecimento.
Se lhe interessa aprofundar ainda mais o tema, tanto aqui no site, no youtube, como na comunidade do SaldoZero, tenho certeza que encontrar muito material.
Outras possibilidades são meu livro e o curso, ambos abordam, no detalhe, como você pode compor uma carteira de investimentos Antifrágil, de maneira sensata e focada para o longo prazo.
Como sempre, lhe desejo todo sucesso e prosperidade que você merece.
Por fim, sou Paulo Boniatti. Um forte abraço e tchau!