BOLETIM FOCUS – Entenda-o e pare de tentar adivinhar o futuro do mercado

Você investe em Bolsa de Valores ou em Renda Fixa? Sim? Então eu te pergunto, você acredita no crescimento do Brasil? Se você responder que não, então temos um problema:

  • Em Renda Variável: como você pode investir em Ações e Fundos Imobiliários tendo como uma percepção negativa para o país? Calma que falaremos sobre isso.
  • Em Renda Fixa: se você não acredita em um futuro promissor para o Brasil, o que você pode esperar em investir em títulos de dívida em um país que supostamente pode se tornar de maior risco?

Você pode pensar: “Nossa, então melhor investir ‘lá fora’?”. E aí você incorre do mesmo questionamento: qual são suas perspectivas para o Dólar? Como você pode investir no mercado americano sem ter a mínima noção de quais são as expectativas ao menos de câmbio?

Não quero com este artigo convencê-lo do que você deve fazer ou quais são as minhas expectativas para Brasil ou para o Mundo — até porque isso deve ser de cada um. Mas eu quero ajudá-lo a entender como você pode obter as expectativas do mercado como um todo e deixar de ser apenas um coadjuvante em meio a toda esta selva chamada Mercado Financeiro.

Se você gostou da ideia, curta o artigo porque estaremos falando do Boletim Focus.

Boletim Focus

Primeiro vamos dizer o que é o Boletim Focus. O Boletim Focus é uma versão resumida do Relatório Focus. Ele é gerado semanalmente baseado na expectativa dos principais economistas e instituições econômicas do mercado. O resultado disso é refletido em um relatório — ou no nosso caso em um simples Boletim.

Esse documento traz quais as expectativas do mercado para o ano corrente, para o próximo ano e para os dois anos subsequentes, tanto para o IPCA (inflação) quanto para o PIB (Produto Interno Bruto — entenda que é a soma das riquezas do país), Câmbio (cotação do Dólar) e Taxa Selic (Taxa Básica de Juros Básica). Adicionalmente, caso você tenha interesse em receber este boletim, pode fazer seu cadastro diretamente no site do Banco Central, o documento é free e enviado semanalmente a seu endereço de e-mail — https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/inscricao_focus.

Não quero, neste artigo, entrar no detalhe de cada uma das variáveis, pois senão teríamos um documento extremamente extenso e possivelmente perderia o foco que é demonstrar o funcionamento do boletim.

Como comentei no início, independentemente de suas expectativas para o país, temos como minimamente entender o que o mercado financeiro espera, e isso, supostamente possa nos ajudar a responder questões como: quais são as perspectivas para o Brasil para os próximos anos? Será que estamos tendo incentivos suficientes para tracionar nossa economia? Estamos em período de crise ou de expansão?

Para o exercício, quero convidá-lo a olharmos o boletim em três momentos: o emitido em 21 de fevereiro de 2020 (antes crise); 17 de julho de 2020 (durante crise); e por último 25 de setembro de 2020 (ainda em crise).

Boletim Focus — fevereiro 2020

Em fevereiro de 2020, a expectativa de mercado — demonstrado pelo Boletim Focus —, nos dizia que a expectativa quanto a Taxa Selic seria de 4,25% para o mesmo ano. Se lembrarmos que já tivemos, no Brasil, uma Taxa Selic de 45% (a.a.) em 1999, uma Taxa Selic esperada de 4,25% (a.a.) para 2020 era algo extremamente animador. Porque? O que uma queda de Taxa Selic pode representar:

  • Quando a Taxa Selic está baixa — ou quando ela é reduzida —, o dinheiro de forma geral fica “barato”. O dinheiro barato promove ou facilita o crescimento das empresas. Se as empresas crescem e geram mais valor, promove o crescimento do PIB. Se há mais riqueza quer dizer que temos mais empregos, mais pessoas com dinheiro e sedentas por consumir — por gastar, por ir às compras —, o que eleva o consumo. Se aumenta o consumo em demasiado, ou seja, se eu tenho muita gente comprando um mesmo produto elevando a demanda — procura —, pode elevar também o preço do produto e causar inflação. Veja figura 1.
  • Do outro lado, quando a Taxa Selic está alta — ou quando ela é aumentada —, o dinheiro de forma geral fica “caro“. O dinheiro caro não promove e dificulta o crescimento das empresas. Se as empresas crescem menos e geram menos valor, causa a redução do PIB. Se há menos riqueza, quer dizer que temos menos empregos, menos pessoas com dinheiro e menos sedentas por consumir — por gastar, por ir às compras —, o que reduz o consumo. Se reduz o consumo em demasiado, ou seja, se eu tenho muita gente ofertando um produto, mas pouca gente querendo comprar este produto, pode ocasionar uma queda dos preços controlar ou reduzir a inflação. Veja figura 2.
Figura 1 Efeito Taxa Selic Baixa
Figura 2 Efeito Taxa Selic Alta

Então pense, se em 1999 nós tínhamos uma taxa de juros extremamente alta que inibia o crescimento do país — até porque poucas empresas se arriscariam a investir em projetos que poderiam não lhe dar um retorno esperado —, agora em 2020 tínhamos um cenário totalmente oposto, com expectativa de taxa de juros em 4,25% (a.a.), possibilitando e impulsionando o crescimento. Neste cenário, as empresas passam a investir mais, geram novos projetos, contratam mais, são mais trabalhadores com dinheiro o que impulsiona o consumo e a roda começa a girar. Esse fato pode ser complementado quando olhamos a expectativa de inflação — na ocasião, de um IPCA a 3,20% — mostra que o consumo interno estava ocorrendo — pessoas estavam comprando bens e serviços.

Agora vamos além, já vimos que a expectativa era de queda da taxa de juros, o que refletiria em dinheiro barato e no desenvolvimento do país através da geração de riquezas. Tudo isso é refletido aonde, no PIB — Produto Interno Bruto. Reflita, se o PIB é soma das riquezas geradas pelo país, e se grande parte desta riqueza se dá pelas riquezas geradas por empresas, então, se temos um PIB crescente, concorda que na média — eu disse na média — as empresas também estão crescendo? E se as empresas estão crescendo, concorda que isso se dá através do aumento de lucro e patrimônio líquidos? E que se há aumento de lucro e patrimônio a tendência é a cotação da ação da empresa se valorizar no longo prazo — como eu já comentei neste outro artigo “Ações – Cotações seguem Lucro e Patrimônio”? Faz sentido então que, se temos expectativa de PIB crescente, termos também, na média, o mercado acionário se valorizando? Pense nisso!

Portanto, analisarmos a tríplice IPCA, PIB e Taxa Selic é um grande início para entender como anda a economia brasileira, queda de taxa de juros, inflação meramente controlada e PIB crescente é o kit que anima os investidores.

Boletim Focus — julho 2020

Crise! Muita coisa mudou! Se compararmos as expectativas que o mercado tinha em fevereiro de 2020 para as expectativas em julho 2020, podemos ver os efeitos da crise. Vamos comparar os dois boletins logo mais na tabela 1.

 Previsão 2020 fevereiroPrevisão 2020 julho
IPCA3,201,72 (queda)
PIB2,20-5,95 (queda)
SELIC4,252,00 (queda)
Tabela 1 boletim focus, comparação antes e durante crise

IPCA passou de 3,20% para 1,72%, isso significa queda no consumo. Nós brasileiros temos pavor de inflação, mas saiba que quando há uma queda dessa como a que está acontecendo não é algo bom, significa que as pessoas estão consumindo menos. Se temos menos pessoas consumindo, quem é que sofre o impacto na outra ponta? São as empresas, que param de produzir e consequentemente vender seus produtos. Menor produção, menos lucro, reduz patrimônio líquido e cotação das ações caem — agora você já sabe disso. Do outro lado, se temos empresas produzindo menos, e como já sabemos que o PIB é a soma das riquezas produzidas, o que acontece com ele? Cai também, faz sentido agora a queda das expectativas do PIB de 2,20% para -5,95%?

Se olharmos para a Taxa Selic, o que poderia ser feito para que ela pudesse, de alguma forma, impulsionar ou minimizar impactos de uma economia em retração? Lembre-se: Taxa Selic baixa deixa o dinheiro “barato“; pode promover crescimento das empresas; pode promover crescimento do PIB; pode elevar o consumo; pode elevar a inflação; e pode causar alta do Dólar. Sabendo disso, faz sentido que realmente houveram diversos cortes na Taxa Selic para minimizar os efeitos da crise?

Antes que alguém questione, não estou defendendo as ações, até porque atualmente o mercado já percebe que a Taxa Selic está descolada com a realidade, fato que já impacta inclusive no Tesouro Selic conforme este outro artigo que já escrevi “Perdendo Dinheiro no Tesouro Selic? Pode isso?“, mas quero que entenda como estas variáveis se comportam e como podem nos dar bastante insights.

E como já antecipei, outro efeito, pode ser a alta do Dólar, aí você pensa, isso é uma das causas que fez com o que o Dólar passasse das expectativas de 4,25 para 5,20? Justamente! É uma das causas, existem outras como as incertezas de mercado. Mas a queda em demasiado da Taxa Selic, sim colaborou — e bastante, desde 2017.

Boletim Focus — setembro 2020

Baseado no que foi visto no último exemplo, quer dizer que investir no Brasil está ruim? Se considerarmos o cenário econômico antes e durante crise, digamos que ficou mais arriscado sim. Mas vamos olhar agora o que é o Boletim Focus de setembro de 2020.

Quais são as previsões para IPCA, PIB e Taxa Selic para os próximos anos? Você verá que o IPCA tende a voltar ao patamar comum brasileiro, por outro lado e por consequência PIB também tem melhores perspectivas — 3,50% para 2021 contra as expectativas de recessão de -5,04% para 2020. E diante disso, frente a uma Taxa Selic de 2% descolada com a realidade, não faz sentido o mercado estar supostamente esperando uma retomada gradativa ano após ano (2,50% para 2021, 4,50% para 2022 e 5,50% para 2023)?

Portanto, realmente o cenário atual é extremamente desafiador — principalmente pelo risco fiscal do Brasil; e Taxa Selic fora da realidade. Não quero alongar o tema neste artigo. Mas o cenário futuro, segundo as expectativas do mercado, pode ser promissor.

Conclusão

Novamente, não quis me alongar no detalhe do Boletim, mas trazer insumos para que você consiga minimamente entender o que o mercado está esperando para Inflação (IPCA), crescimento do país (PIB), Dólar (Cambio) e Taxa de Juros (Selic).

Diante destas variáveis você pode ao menos imaginar como aquele seu título amarrado a Selic e ao CDI pode se comportar nos anos seguintes. O mesmo pode acontecer com as perspectivas para as companhias (baseado no crescimento do PIB e no consumo). E não obstante, já pode ter uma ideia de que temos expectativas de Dólar alto por longos anos.

Como mencionei, tudo isso são expectativas de mercado. Expectativa é diferente de previsão que é muito diferente de certeza. Outra questão, o mercado é mais amplo que isso, é importante inclusive entender as políticas econômicas: Fiscal, Monetária e Cambial. Mas, lhe pergunto, entendendo estas variáveis: PIB, Selic, IPCA e Câmbio já não lhe dá um panorama muito melhor do que esperar para o Brasil?

Espero que eu tenha conseguido, minimamente, agregar conhecimento para você. Agora, deixo você refletir sobre tudo isso que falamos para que possa decidir por investimentos cada vez mais inteligentes.

Por fim, sou Paulo Boniatti, um forte abs, até o próximo artigo e tchau!

Escritor, autor do livro Montando uma Carteira de Investimentos Inteligente. Paulo Boniatti é pós-graduado em Gestão em Mercado Financeiro pela FAE Business School. Especialista em investimentos e adepto da filosofia do antifrágil, tem como principal característica a maneira simples e descomplicada de explicar o mercado financeiro. Além de youtuber e criador do canal SaldoZero, é também gestor do Clube de Investimentos Opportuna CI.

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