Você já pensou ter todas suas dívidas extremamente controladas, seu imóvel praticamente quitado (ou já quitado) e ainda assim quebrar financeiramente?
Isso não é incomum de ocorrer, e é causado, geralmente, por falta de planejamento financeiro e por sobra de crenças equivocadas sobre dinheiro.
E por isso, hoje quero falar de um dos riscos mais traiçoeiros que, literalmente, quebra muita família, apesar de possuírem sua vida financeira toda ajustada: o risco da liquidez (ou a falta de liquidez).
O que é liquidez
De maneira bastante resumida, liquidez é a capacidade de transformar um bem em dinheiro. Tente imaginar uma Caderneta de Poupança, com sua liquidez em D+0, facilmente você consegue o dinheiro no mesmo dia solicitado.
No outro extremo temos, principalmente, os imóveis, uma paixão nacional. Imóveis não são simples de serem liquidados (vendidos), alguns levam mais de anos para que a venda seja concretizada. E, nem sempre pelo preço desejado.
A educação financeira liberta
Esse artigo vem com o objetivo de complementar e reforçar meu posicionamento frente a outros dois artigos bastante procurados pelo pessoal que acompanha o SaldoZero:
- Por que você não deve antecipar parcelas do financiamento imobiliário
- Vale a pena amortizar financiamento imobiliário pela tabela Price?
Vale ressaltar que esses outros artigos também se transformaram em vídeos para o youtube. E notei que alguns dos argumentos mais citados pelo público em geral foram:
- Amortizar um imóvel é sempre melhor porque investir tem risco e imóvel é seguro;
- O melhor investimento é não ter dívidas.
Poderia citar outros argumentos, o que não vem ao caso. Mas vamos analisar esses comentários pelo risco que pouquíssimas pessoas colocam na conta, e podem literalmente quebrar financeiramente.
Antes de darmos continuidade gostaria de deixar uma sábia frase de Mart Twain: “O que nos põe em apuros não são as coisas que não sabemos. São aquelas que, mesmo não sendo verdadeiras, temos certeza que são“.
A educação financeira liberta, então vem comigo.
O risco da falta de liquidez
Se nos outros artigos comparei, pelo viés financeiro, o que era melhor, amortizar um imóvel ou investir, hoje quero trazer questões ligadas a risco.
Muita gente comentou que investir é arriscado, e que por isso amortizar é melhor e mais seguro.
Acontece que, primeiro, precisamos ponderar. Quando alguém lhe diz que a melhor opção é sempre A ou B, desconfie, principalmente quando estamos falando de dinheiro.
Cada família, cada investidor, tem uma realidade diferente. A receita que serve para um possivelmente não servirá para o outro.
Mas algumas questões devem sim, sempre, serem analisadas. Uma delas é o risco da liquidez, um dos mais traiçoeiros.
Vamos supor uma família que acredite que em seu cenário, é melhor amortizar um imóvel.
O banco por si já fez uma análise de crédito para que as prestações não comprometessem mais do que 30% da renda familiar. Mas, apesar disso, essa família, com uma vontade ardente de quitar esse financiamento antes do tempo, começa a se comprometer mensalmente com mais do que os 30%.
Essa família se ajusta, se organiza e reduz custos para que consiga maximizar essa amortização. Até porque, como diz a crença popular: “imóvel é algo seguro”.
Mas, de repente, o membro familiar de maior receita é desligado de seu emprego. O que até o momento era uma vida financeira bastante organizada, toda ajustada, se torna em um grande pesadelo.
Sem emprego, sem reservas financeiras e sem conseguir pagar se quer as parcelas do financiamento, aquela família se vê em apuros. E de duas uma:
- conseguem rapidamente se realocar no mercado financeiro e tudo volta ao normal;
- são obrigados a liquidar o imóvel para sobreviver.
Supondo esse segundo cenário, essa família se vê frente as dificuldades que envolve a venda de um imóvel. Imóvel é um dos ativos com menor liquidez, não é fácil de se vender, principalmente se for ao preço que achamos justos.
Mas a “corda está no pescoço”. E aquela família é obrigada a vender o imóvel muito abaixo do valor do mercado, ou, caso contrário poderá perder esse bem.
Esse é o risco da liquidez, o risco de ficar sem dinheiro em caixa para possíveis eventos trágicos. Nassim Taleb chama esses eventos de Cisnes Negros: eventos raros, não previstos e que nos impactam profundamente.
Como isso poderia ter sido evitado
Veja, não estou dizendo que amortizar seja algo ruim, tampouco que quitar dívidas seja algo indesejado. Não é isso.
Mas, já rebatendo aquela outra crença que, “investimento bom é não ter dívidas”, digo que, isso não é verdade. Pois nem sempre é a melhor opção!
Você precisa ter um colchão de liquidez familiar, uma reserva suficiente para manter você vivo financeiramente por um determinado período de tempo. De nada adianta estar com as dívidas sob controle e sem dinheiro em caixa.
Não estou dizendo também para você não pagar suas dívidas. Dívidas são compromissos firmados e assim temos que fazer.
Mas o banco não ficará mais feliz por você devolver mais dinheiro do que ele estava esperando. Tampouco você será uma pessoa melhor fazendo isso.
Ouso a dizer que, em certos cenários, esse desejo ardente de liquidar as dívidas antes do prazo que vejo em muita gente, poderá tão somente tornar você uma pessoa com menos dinheiro em caixa e com mais risco financeiro.
Se no exemplo que lhe dei, aquela família tivesse ponderado e não se descapitalizado fazendo uma amortização em demasia, poderia ter uma reserva financeira para se manter em um período inesperado.
Isso, em educação financeira é o que chamamos de Reserva de Emergência, que muita gente despreza. Principalmente aqueles que afirmam veemente questões de “deseducação” financeira.
Por isso, novamente aquela frase de Mark Twain se faz tão verdadeira: “O que nos põe em apuros não são as coisas que não sabemos. São aquelas que, mesmo não sendo verdadeiras, temos certeza que são“.
Nessa linha de Twain, vejo muita gente optando por amortizar ao invés de investir seu capital porque investir é arriscado, e se esquecem do risco da liquidez dos imóveis, justamente porque não vislumbram. É um risco “oculto”.
Seu maior inimigo não é aquele que você pensa não conhecer, mas sim aquele que você “acredita” conhecer, e que na verdade não conhece.
E não pense que imóvel quitado seja diferente. Se a família não possui reserva para mantê-la em períodos imprevistos, pode quebrar, apesar do imóvel quitado, pelos mesmos motivos já citados.
Um gancho
Sem tomar muito tempo, mas aproveitando esse artigo e tomando um gancho. Muita gente que alega que é melhor amortizar a investir, o faz afirmando que o Brasil não é um lugar para investimentos.
Esse tipo de argumentação, fraco, vem geralmente por meio de pessoas que desconhecem melhores modos de se investir. Só acreditam naquilo que enxergam e se fecham para outras possibilidades. A tal da crença limitante.
Ninguém em sã consciência deveria investir em um único tipo de investimento. Apostar todas suas fichas em um único ativo também é incorrer do risco: da ruína.
Aqui entramos com questões de diversificação entre classes de ativos:
- Se as taxas de juros no Brasil subirem? Tenha parte em ativos pós fixados. Tenha parte em ativos que lhe protejam da inflação.
- Se os títulos de dívida aumentarem seus riscos? Tenha parte em Ações de empresas de qualidade, no pior dos cenários você continuará tendo parte na companhia.
- Gosta de renda proveniente de aluguéis de imóveis? Por que não ter parte da carteira em Fundos Imobiliários?
- Se o Brasil der ruim? Tenha parte dos seus investimentos no exterior.
- E etc.
Isso se chama composição de carteira. E tem material para tudo isso aqui no portal.
Se livre de crenças limitantes
Portanto, novamente, algo que já abordei nos outros dois artigos citados: livre-se de crenças limitantes.
Ponderação deve ser a palavra de ordem. Vejo que isso falta em muita gente:
- Nem sempre amortizar será a melhor opção frente a investir, e vice versa;
- Nem sempre um imóvel quitado é sinal de segurança;
Cada caso é um caso e desconfie quando alguém lhe disser que a melhor opção é “sempre” A ou B.
Se me permite
Apesar de cada um ter o direito de tomar sua própria decisão. Gostaria apenas de dizer para você NÃO SE DESCAPITALIZAR desnecessariamente. Imprevistos acontecem, e por isso o nome é “imprevisto”, quando ele chegar, esteja preparado.
Obviamente, algumas dívidas possuem juros abusivos, e realmente o desejo é de se livrar o quanto antes, mas sempre pondere. Busque renegociação ou portabilidade para outra instituição, se for o caso.
Veja o que é melhor para o seu cenário. Mas, independentemente qual for sua decisão, não se esqueça desse risco que pouca gente coloca na conta: da falta de liquidez.
Espero ter agregado conhecimento,
Por fim, sou Paulo Boniatti, um forte abraço e tchau!