Eu sei, se você caiu neste artigo após ter visto materiais de outros canais, muito provavelmente deve ter se deparado com a seguinte informação: amortizar no prazo é melhor.
Contudo, vou te dizer o seguinte: estas pessoas que afirmam que, amortizar no tempo é sempre melhor, não sabem no detalhe — ou imaginam que sabem — o que estão falando.
Algumas pessoas fazem isso por falta de conhecimento, outras o fazem simplesmente repassando algo que lhes disseram.
De todo modo, e independente de tudo isso, não é meu objetivo refutar ou dizer que amortizar no prazo não seja boa opção.
Pelo contrário, quero te mostrar que, financeiramente falando, e diferente do que dizem, a resposta para amortizar no prazo ou na prestação é um grande: tanto faz.
Se este tema lhe interessa, confia e vem comigo!
O valor do dinheiro no tempo
Muito da crença sobre amortizar no prazo ser melhor que amortizar na prestação é com relação ao montante de juros que será pago entre ambos os modelos de amortização.
Vejamos o seguinte: em um financiamento de R$100mil a um prazo de 240 meses (20 anos) e taxa de 8,5% (a.a.), nos utilizando do modelo SAC (sistema de amortização constante), você pagaria, ao final de todo o período, um total de R$182mil, ou R$82mil somente em juros.
Mas, e se dispuséssemos de R$20mil para fazer uma grande amortização? Supondo que esta amortização fosse realizada já no mês 0, nossa dívida inicial de R$100mil passaria a ser de R$80mil.
Teríamos então duas opções: abater este montante do saldo devedor e manter o prazo, ou abater do valor da parcela. Olhando friamente para os dados teríamos o seguinte:
- No prazo: quitaríamos o financiamento em 192 meses (redução de 48 prestações) e manteríamos o valor das parcelas. Ao final teríamos pago R$52mil em juros.
- Na prestação: quitaríamos o financiamento em 240 meses e reduziríamos o valor das parcelas. Ao final teríamos pago R$63mil em juros.
Preste atenção aqui! Olhando para estes números ficaria evidente que amortizar no tempo nos traria o benefício de pagar menos juros, não é mesmo? De maneira nenhuma! É justamente aqui aonde muita gente finaliza sua análise e conclui qual das duas opções é a melhor financeiramente.
Não paremos por aqui. Vamos subir um nível em estudos! Ou melhor, descer um nível nos detalhes.
O que muita gente ignora — ou não se dá conta — é uma questão chamada valor do dinheiro no tempo. Em que consiste isto? Supondo que você ganhasse R$1mil, o que seria melhor: receber os R$1mil hoje ou daqui 1 ano?
Suponho que você tenha respondido que R$1mil hoje é melhor. Realmente, receber R$1mil hoje é melhor do que o receber daqui 1 ano. Mas, muita gente responde inconscientemente
Mais do que o prazer de receber um dinheiro antes, precisamos compreender melhor o que é o valor do dinheiro no tempo.
Para ficar mais claro. Se você tem costume de aplicar um dinheiro na Poupança, quanto estes R$1mil estariam valendo daqui há 1 ano? Um pouco mais que isso.
E isto vale para tudo. Com o aumento dos preços de diversos produtos causado pela inflação, podemos concluir que, o que R$1mil compram hoje, não comprarão daqui 1 ano.
Em outras palavras, tanto dizer que o dinheiro tem mais valor hoje, podemos dizer também que ele perde valor no futuro.
Portanto, independente do que você faça, minimamente já sabemos que, melhor R$1mil hoje, do que R$1mil, sem correção, daqui 1 ano. Ou, para que as coisas se equiparassem, poderíamos dizer que R$1mil hoje seria tão bom quanto, R$1mil + alguma coisa, no futuro.
Sendo assim, se sabemos que o dinheiro perde valor com o tempo, e voltando ao nosso exemplo de amortização, é melhor pagar R$52mil de juros no decorrer de 193 meses, ou R$63mil no decorrer de 240 meses?
Complicado? Eu sei que é. Por isso que muita gente responde pela maneira mais fácil, olhando somente o juro que será pago, sem considerar o valor do dinheiro no tempo.
Mas, para facilitar, vamos puxar da memória o nosso tempo escolar quando os professores de matemática nos diziam que, para resolver uma equação era necessário trazer os valores para a mesma base.
A nossa base, neste caso, é um outro termo chamado valor presente. E é sobre isto que falaremos na sequência.
Trazendo a valor presente
Já sabemos que R$1mil hoje tem mais valor do que R$1mil no futuro. Da mesma maneira podemos dizer que, R$1mil no futuro tem menos valor que R$1mil hoje, a lógica é a mesma.
Portanto, quanto R$1mil de 2030 valeria hoje em 2022? Supostamente seria menos do que isso. Talvez R$950 ou R$900. O que nos dirá o valor exato é uma taxa de juros.
Como exemplo, caso nosso financiamento não sofresse amortização, a última parcela — a de número 240 — seria de R$419, mas que, trazendo a valor presente (dias de hoje), seria o equivalente a apenas R$82,06.
De onde tirei estes R$82,06? É simples, descontei os R$419 por nossa taxa de 8,5% (a.a.) pelos 240 meses. Há uma fórmula matemática para isto. Vou deixar a critério de curiosidade:

Você pode se utilizar desta, ou diretamente da fórmula VP, em seu software de planilha eletrônica para calcular o valor presente de todas as parcelas de seu financiamento.
Entenda, por um juro de 8,5% (a.a.), R$82 é o mesmo que R$419 daqui há 240 meses e vice versa. Isso é o valor do dinheiro no tempo.
Mas, dando continuidade, e voltando ao nosso exemplo de financiamento, se considerarmos todas as 192 prestações restantes na opção de amortizar no prazo, e trazendo todas elas aos seus respectivos valores presentes, haveríamos de pagar um montante futuro de R$132,661mil, equivalente a R$80mil de hoje.
Do outro lado, considerando a opção de amortizar na prestação, haveríamos de pagar um montante futuro de R$145,759mil, equivalente a… — pasme: os mesmos R$80mil de hoje.
Houve diferença nos valores totais pagos, corrigidos a valor presente, entre as estratégias? Não, nenhuma diferença.
Nem sempre as respostas nos parecem fazer sentido
Eu sei, em um primeiro momento tudo isso possa não fazer muito sentido. Por este motivo que dediquei a introdução deste artigo para falarmos do valor do dinheiro no tempo.
Se de um lado estaremos pagando um juro por mais tempo, mas com um dinheiro cada vez mais barato, do outro estaremos pagando menos juros, mas com um dinheiro mais caro. No fim, neste caso, financeiramente falando, sairá elas por elas.
Muita gente se esquece, ou não faz ideia, de que, R$50mil em 10 anos valerão menos do que os mesmos R$50mil em 20 anos. Portanto, agora você, sabendo disto, não pode ignorar esse simples e importante detalhe.
O VP (valor presente) assim como o VPL (valor presente líquido) e TIR (taxa interna de retorno) são valores e cálculos amplamente utilizados nos ambientes empresariais, em especial quando se analisam viabilidades econômicas para investimentos.
A propósito, a TIR calculada — considera o retorno financeiro baseado nos fluxos de caixas —, dos exemplos amortizados foi de, 8,4900% amortizando no prazo contra, 8,4894% amortizando na prestação.
Uma diferença ínfima e que mostra, mais uma vez, a igualdade financeira entre ambas as amortizações.
Suponho que ninguém lhe explicou isso.
A decisão nem sempre é financeira
Agora que já falamos exaustivamente que, financeiramente falando, não há diferença entre amortizar no tempo ou no prazo, a quem — ou quando — é válido cada tipo de amortização?
Talvez as respostas possam estar incutidas olhando pelo ângulo ao contrário: a quem não é recomendado.
Vamos supor uma família que tenha uma receita modesta, que esteja em seu limite para manter as contas em dia e nenhuma alternativa em caso de perda de emprego. Faria sentido para esta família pegar um capital excedente e amortizar o prazo do financiamento, mantendo o valor das parcelas?
Não seria melhor, neste caso, abater o valor das prestações e ganhar mais fôlego a ponto de, inclusive, gerar uma reserva de valor para possíveis contratempos financeiros? Será que um sono bem dormido por ter uma folga maior não seria melhor a um pesadelo de não conseguir pagar o financiamento do mês seguinte?
Em um outro cenário, para famílias que acabaram entrando em um dos piores tipos de financiamentos imobiliários: indexado ao IPCA — ou outros índices inflacionários. Faria sentido amortizar na prestação e ficar por mais tempo suscetível a surpresas desagradáveis com inflação descontrolada, vendo seu financiamento encarecer?
Não seria melhor, neste caso, — além de tentar mudar o contrato com o banco — abater o prazo para liquidar o financiamento o quanto antes? De todo modo, a ressalva sobre a capacidade financeira do ponto anterior, também valeria aqui.
Para uma família que tem aversão a dívidas, que não tem qualquer interesse em investir seu capital e tem uma condição financeira — e estabilidade profissional — mais tranquila. Por que manter o prazo do contrato longo?
Não seria melhor, neste caso, liquidar o financiamento o quanto antes?
Trazendo um último exemplo — já abordado em outros artigos —, para uma família que tenha conhecimentos sobre mercado financeiro e que consiga encontrar opções de investimentos que rentabilizem acima do juro do contrato, faria sentido devolver este capital de mão beijada ao banco se é possível investir e rentabilizar melhor o capital?
Não seria melhor, neste caso, manter aquele financiamento a uma prestação tranquila e, ao mesmo tempo, ao invés de amortizar, investir o capital?
São questões que nem sempre a matemática responderá.
Considerações finais
Como pode ver, comparativamente falando, não há diferença financeira entre ambas as amortizações, mas haverá muita diferença entre qual estratégia a se seguir, a depender do objetivo de vida de cada família.
A diferença é o que você deseja: se livrar antes pagando com dinheiro mais caro, ou se livrando depois com dinheiro mais barato.
E, atrelado isso, virão suas demais decisões de vida.
Sucesso e prosperidade,
Paulo, parabéns pelo vídeo. Achei muito interessante e elucidativo. Fiz minha própria simulação no Excel e ficou muito parecia com a tua. Entretanto, quando simulei NOVAS amortizações, 1 por ano no valor de 20000 reais, já encontrei grande diferença na “economia” de cada método. De fato, a amortização pelo número de parcelas se mostrou quase 10 mil reais mais econômica. Você poderia gravar um vídeo ampliando a simulação, ou seja, imaginando que a pessoas fará vários aportes? Obrigada!