A consistência nos investimentos pode deixar você rico

Se eu lhe dissesse que o segredo para enriquecer no mercado financeiro não está necessariamente em buscar rentabilidades superiores, mas sim em se manter consistente pelo maior tempo possível, você acreditaria?

Muita gente acredita que o segredo está em alcançar altas rentabilidades, 1%, 2% ou até mais ao mês. Mas na verdade, a depender, focar em uma rentabilidade mais modesta, porém mais consistente, pode trazer um retorno melhor no futuro.

E não estou falando de constância, aquela ao qual é dito que aportar recorrentemente é melhor do que que aportar esporadicamente e etc. Até porque, este tema já foi exaustivamente abordado aqui no SaldoZero.

Sugiro inclusive alguns artigos: (1) Vai investir? O que é melhor: aporte grande uma única vez, ou aportes menores e recorrentes?; (2) Qual a melhor estratégia de aportes para Bolsa de Valores: comprar ações na baixa ou fazer aportes mensais? e; (3) O que trará melhor retorno: aportar pouco mensalmente ou um valor maior uma vez ao ano?.

O que quero abordar hoje é a consistência da rentabilidade da carteira de investimentos. A depender, uma carteira mais perene, sólida e robusta pode ser trazer um retorno melhor do que uma carteira mais agressiva, porém menos previsível.

Portanto, como sempre, se este tema lhe interessa, confia e vem comigo.

As famosas rentabilidades mensais

Quem nunca se deparou em algum momento com as famosas rentabilidades mensais? Até porque, este é um dos motivos que atrai muita gente para investimentos que podem retornar 1%, 2% ou até mais por mês.

Não é meu objetivo refutar estes retornos. Mas mostrar que, a depender, a busca por uma rentabilidade mensal elevada pode ser pior do que simplesmente se manter em uma rentabilidade menor e mais consistente.

Como não passo longe de exemplos, e acredito ser importante exemplificar antes de aprofundarmos o tema, vejamos:

  • Muita gente olha para a rentabilidade histórica do Bitcoin e conclui que ele teve uma rentabilidade média mensal de 7%, desde 2012. Sendo assim, sonham conseguir uma rentabilidade semelhante futura. Contudo, poucos, consideram que, no caminho, quedas de mais de 40% podem ocorrer. A última queda desta faz pouco tempo: entre outubro de 2021 e janeiro de 2022.
  • Muita gente olha para a rentabilidade histórica das ações da Magazine Luiza e conclui que ela teve uma rentabilidade média mensal de 3%, desde 2012. Poucos, porém, consideram que, no caminho, quedas de mais de 74% podem ocorrer. A última queda desta faz pouco tempo: janeiro de 2022.
  • Muita gente olha para a rentabilidade histórica da Bolsa brasileira (Ibovespa) e conclui que ele teve uma rentabilidade média mensal de 1%, desde 2012. E da mesma maneira, poucos consideram que, no caminho, quedas de mais de 20% (ou mais) podem ocorrer. A última queda desta faz pouco tempo: entre junho e novembro de 2021.

Aqueles que começaram a investir em Bitcoin no final de 2021, acreditando em rentabilidades superiores de 7% ao mês, estão vendo que não é bem assim; o mesmo para quem acreditou na explosão (no bom sentido) de Magazine Luiza; da mesma maneira quem projetou aqueles 1% mensais da Bolsa.

Poderia trazer inúmeros outros exemplos de investimentos que tiveram rentabilidades expressivas no passado e que muita gente acredita poder repeti-las no futuro. Pode até ser que se consiga, não quero dizer o contrário. Mas, e se não conseguir? E se, no passar dos meses, outras quedas expressivas acontecerem?

Seria então melhor, uma rentabilidade mensal menor, mas mais consistente, do que uma rentabilidade maior, mas totalmente imprevisível? A depender, sim. E é isso que quero te mostrar.

Uma pequena correção

Era uma vez, uma pequena correção. Quem já investe a mais tempo já deve ter ouvido o termo: mercado está corrigindo.

O mercado corrigir nada mais é que ele retornar as suas médias ou algo próximo disso. Logo após um período de fortes altas, tende a cair um pouco. E da mesma forma o contrário, após um período de fortes quedas, tende a se recuperar também.

Não é o foco detalhar este ponto. Mas, salvo se você estiver investindo em títulos que tenham sua taxa pré-fixada e que não sejam marcados a mercado, os investimentos tendem a oscilar.

Vamos supor o seguinte: um mesmo horizonte de tempo e aportes mensais de R$1mil.

No primeiro cenário, o investidor preferiu ser mais cauteloso. Diversificou sua carteira de maneira inteligente, se protegeu do câmbio, se protegeu do mercado interno e selecionou ativos de maior qualidade.

No segundo cenário, o investidor tinha como objetivo somente obter uma rentabilidade mínima, mensal, de 2%. Preferiu focar em ativos mais agressivos e especulativos. Nada de proteção, o foco é rentabilidade superior.

Importante ressaltar que 2% ao mês é uma rentabilidade superior inclusive do maior investidor de todos os tempos, Warren Buffett.

Durante os primeiros 6 meses, o investidor especulativo superou sua meta, conseguiu um retorno muito mais expressivo dos que os 2%, obtendo assim uma rentabilidade média mensal (aparentemente), neste período, de expressivos 9% contra 1% do investidor consistente.

MêsInvestidor 1 (consistente)Investidor 2 (especulador)
11%8%
21%12%
31%7%
41%13%
51%8%
61%4%
Média1%9%
Rentabilidades de 6 meses

No entanto, o que se vê no mês 7 ao mês 8 é uma correção de mercado — apesar de ser um exemplo hipotético, para aqueles que acham que isso é difícil de ocorrer, basta rever os exemplos reais dados neste mesmo artigo. Seguido a isso, os meses seguintes foram de forte recuperação.

MêsInvestidor 1 (consistente)Investidor 2 (especulador)
11%8%
21%12%
31%7%
41%13%
51%8%
61%4%
71%-40%
81%-10%
91%6%
101%6%
111%5%
121%5%
Média1%2%
Rentabilidades de 1 ano

Agora vejamos, para quem olha para a rentabilidade mensal, e considera simplesmente uma média, pode concluir que o investidor 2 atingiu seu objetivo de alcançar um mínimo (aparentemente) de 2% ao mês. Supostamente, teve um retorno mais interessante se comparado ao investidor mais consistente. Será? Não mesmo.

Ao final deste primeiro ano, o investidor 1 teria encerrado o período com um patrimônio de R$12,8mil contra R$11,7mil do investidor 2.

MêsAportesInvestidor 1 (consistente)Investidor 2 (especulador)
12R$12milR$12,8milR$11,7mil
Resultado 12 meses

E não para por aí. Vamos supor, obviamente de maneira hipotética, que esse comportamento perdurasse, ano após ano, pelos próximos 29 anos.

Ao final, o investidor 1 teria encerrado o período com um patrimônio de R$3,529milhões contra R$1,878milhão do investidor 2.

MêsAportesInvestidor 1 (consistente)Investidor 2 (especulador)
360R$360milR$3,529miR$1,878mi
Resultado 30 anos

Como isso é possível? Simples, assim como abordado no artigo Seja um investidor inteligente ­­— dê mais atenção as possíveis perdas, as quedas são sempre muito mais impactantes em uma carteira de investimentos. Uma queda de 50% dependerá de uma alta de 100% somente para empatar.

Além disso, atenção as médias, elas não representam a realidade. Quando estamos falando de mensurar o retorno de um capital, duas ótimas maneiras são por meio da TIR e do VPL. Sem querer entrar em detalhes, uma vez não ser o objetivo, mas:

  • TIR (Taxa Interna de Retorno) – mede o retorno de um capital investido considerando seus fluxos de caixas;
  • VPL (Valor presente líquido) – traz todo o fluxo de caixa para valor presente considerando uma taxa de desconto.

Ambas fórmulas você encontrará em planilhas eletrônicas como é o caso do Microsoft Excel. Apenas como complemento, a TIR de ambos investidores foi de:

TIRInvestidor 1 (consistente)Investidor 2 (especulador)
Anual12,72%9,51%
Mensal1%0,76%
TIR

Como pode ver, o investidor 2 não teve uma rentabilidade mensal de 2%. Doce ilusão.

Tenha consistência nos investimentos

Para os mais críticos, é obvio que não estou querendo afirmar ser possível uma rentabilidade fixa mensal por durante tanto tempo. O mercado é volátil. Mas, por outro lado, há sim como termos uma carteira mais consistente ao longo dos anos, não reduzindo sua volatilidade, mas ganhando com ela — tema que é tratado em detalhes em meu livro e curso.

Não entrarei em detalhes uma vez que já fiz um artigo falando sobre. Em linhas gerais:

  • Tenha foco na carteira antes de focar nos ativos;
  • Tenha classes ou ativos de proteção na carteira;
  • Tenha investimentos específicos para cada horizonte de tempo;
  • Evite modismos;
  • Desapegue do dia a dia (notícias e verificar o saldo da carteira);
  • Faça rebalanceamentos pontuais.

Sugiro a leitura: Como ter mais consistência nos investimentos.

Além disso, se trouxermos para a discussão as finanças comportamentais, poderíamos ousar a dizer que, o investidor 2 de nosso exemplo, talvez não suportasse uma queda de 40% em um mês — como não é raro de acontecer —, e acabasse ficando pelo caminho.

Considerações finais

É claro que me utilizei de um cenário hipotético e portanto não podemos generalizar. Mas, espero que tenha ficado claro que, assim como um carro, tão, ou mais, importante do que acelerar, é saber como frear. Se você investe sem um bom plano de carteira, pensando somente na aceleração, ou seja, na rentabilidade, pode ser que quando precisar do freio, ele não funcione.

Muitas vezes o devagar e sempre pode ser melhor do que o rápido e nunca.

Obviamente que se ambas as coisas forem possíveis, melhor ainda.

Espero ter agregado um pouco mais de conhecimento.

Como sempre, sucesso e prosperidade sempre.

Paulo Boniatti

Escritor, autor do livro Montando uma Carteira de Investimentos Inteligente. Paulo Boniatti é pós-graduado em Gestão em Mercado Financeiro pela FAE Business School. Especialista em investimentos e adepto da filosofia do antifrágil, tem como principal característica a maneira simples e descomplicada de explicar o mercado financeiro. Além de youtuber e criador do canal SaldoZero, é também gestor do Clube de Investimentos Opportuna CI.

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