Esse tema não estava nos meus planos de curto prazo. Contudo, senti uma forte necessidade de abordá-lo após as recentes intervenções governamentais ou ameaças que ocorreram sobre empresas estatais.
Nesse artigo quero trazer o caso recente que envolve a Petrobrás. Uma empresa que vem tentando se reerguer após escândalos e intervenções de governos passados, e que agora se vê, novamente em foco, sendo atropelada por medidas populistas.
Não invisto em estatais
Ao montar minha carteira e ao selecionar meus ativos, tenho como premissa não investir em empresas estatais. Não porque são empresas ruins, pelo contrário, temos empresas estatais que são grandes instituições.
O problema maior que vejo ao investir em empresas assim, se dá pelo conflito de interesse. Não é difícil de compreendermos que, um governo impopular não se reelege. O discurso e as ações são sempre as mesmas: promete-se aquilo em que se acredita, executa-se aquilo que lhe gera maior popularidade para manter o partido no maior tempo possível no poder.
Isso não é exclusividade de um ou outro governo. É enraizado desde muitas décadas atrás. Faz parte do jogo político e precisamos compreender isso.
E veja, não estou aqui para tomar partido de um lado ou outro. Não é o foco do artigo tampouco salutar para o entendimento. Quero trazer apenas um exemplo claro, e recente, de intervenção governamental injustificada.
O caso Petrobrás
Não é novidade para ninguém que o preço dos combustíveis vem subindo em demasiado já a algum tempo. Fato esse que começou a desencadear novas ameaças de greve dos caminhoneiros.
A questão é que, não por desconhecimento de gestão de empresas, uma vez que nossos governantes são assessorados por diversos membros de carreira executiva, o governo começou ameaçar a Petrobrás, jogando para ela a responsabilidade da alta dos combustíveis.
Era um cenário previsível que, em pouco tempo uma bomba estaria para estourar. E assim o fato foi consumado: Bolsonaro troca comando da Petrobrás.
Será que o problema realmente é a Petrobras?
Para compreendermos se o problema realmente é a companhia, precisamos entender, sucintamente, seu principal tipo de produto: o petróleo.
Esse bem, o petróleo, é o que chamamos de commodity. Commodity, em linhas gerais é um produto que é igual em qualquer parte do mundo e segue uma cotação única. Ex.: petróleo, trigo, soja e assim por diante.
Entenda que, o petróleo no Brasil é igual ao petróleo nos EUA que é igual ao dos países da OPEP. E, dessa forma, segue cotação única, em Dólar, no mercado internacional. Portanto, a Petrobrás é diretamente influenciada pela cotação mundial deste bem, no caso, do Brent (Petróleo mais comum).
Se o Dólar se valoriza frente ao Real, a companhia passa a ver lucros mais expressivos, o que é bom para ela e seus acionistas. O contrário também é verdadeiro, quanto mais desvalorizado for o Dólar, menor será o lucro para a empresa e seus acionistas.
Tomando um gancho, esse inclusive é um dos grandes problemas de se investir em empresas de commodities, não basta a performance operacional da companhia. A empresa fica refém do humor do mercado internacional. E, nesse caso, das brigas entre os grandes produtores de petróleo.
Mas isso por si só não é o único problema de uma companhia como a Petrobrás. Além dela ser sensibilizada pelo humor internacional. É preciso ponderarmos o tema central desse artigo. A intervenção governamental movida pelo populismo.
Até o momento vimos que, a empresa comercializa um bem que é cotado em Dólar. E é sabido que o Dólar vem se valorizando em demasiado. Agora quero levar você a refletir por outro ângulo: não é o Dólar que se valoriza, mas nossa moeda, o Real, que está cada vez mais desvalorizada frente ao mundo.
Entenda então que, quanto mais desvalorizado nosso Real, mais caro se tornará o petróleo e seus derivados internamente para nós. É ruim né? Concordo com você.
Mas, o problema é a Petrobrás?
Vejamos, como já citei em diversos outros artigos, a causa principal de todo essa alta do Dólar é nossa Taxa de Juros (Taxa Selic). Que tipo de investidor internacional vai colocar dinheiro no Brasil sabendo que receberá de Taxa Básica de Juros 2% (a.a.) com um tremendo risco fiscal que temos?
Esses dois fatores, taxa de juros baixa e risco alto justificam uma fuga gradativa e constante de Dólar para o exterior. Se temos menos Dólar disponível internamente, mais caro ele tende a se tornar.
Quero trazer ainda um gráfico. A linha azul é a cotação do Petróleo em Dólar, veja que, a commoditie já foi muito mais cara anos atrás. Agora, por outro lado em laranja, o mesmo gráfico cotado em Real. O problema é a Petrobrás ou o Brasil que está vendo sua moeda perder valor ano após ano frente ao mundo?

Por quê não desvinculamos o preço do petróleo do Dólar e vinculamos ao Real?
“Bom Boni, entendi então que o problema dessas altas do petróleo é decorrente da alta do Dólar, devido a Taxa de Juros no Brasil estar muito baixa frente ao risco que o país oferece. Mas, o Brasil é um grande produtor de petróleo. Por que ele não pode vender o Petróleo internamente em reais?”
Muitos acreditam nisso, inclusive o Governo fecha os olhos para por meio de medidas populistas. Muitos imaginam que por sermos um grande produtor que, poderíamos vender o petróleo cotado em reais e com isso não sermos sensibilizados pela cotação mundial. Afinal o petróleo é nosso.
O que acontece, o Brasil não é autossuficiente em combustíveis. Somos grandes, mas não autossuficientes. Por limitações operacionais extraímos petróleo bruto e importamos o produto refinado. Aproximadamente 20% do consumo vem de fora.
Tente imaginar o seguinte: digamos que atualmente uma grande fábrica importa petróleo cotado em Dólar, e que, subitamente percebe que pode consumir petróleo mais barato diretamente no mercado interno, em Real. Será que essa fabrica continuaria importando o produto ou passaria a consumi-lo mais barato no mercado interno?
Mantendo o preço baixo internamente, causaria uma mudança no consumo. Todo o mercado deixaria de importar o combustível e passaria a consumir internamente. Mas como só temos 80% de capacidade, geraríamos um desabastecimento.
Nesse cenário, digamos que por falta de capacidade, a Petrobrás fosse obrigada a importar o combustível refinado faltante custeado em Dólar e vende-lo internamente em Real. Não é difícil imaginar que a empresa passaria a arcar com prejuízos operacionais (custo em Dólar e receita em Real). Medidas como essa já foram realizadas no governo Dilma.
Podemos pensar até pelo viés de que, a companhia é um patrimônio nacional. Como tal somos donos e temos de presar por sua saúde financeira, não o contrário. Falir uma companhia do tamanho da Petrobrás agravaria ainda mais o problema.
Inclusive, já abordei em outro vídeo no canal o problema de termos ações intervencionistas do governo congelando preços de produtos. Não funciona. E no médio prazo o problema pode ser maior. Não tem jeito, a conta sempre vem. Ou desabastecemos ou pagamos mais caro.
Portanto, seguir a cotação mundial é a forma de manter o mercado abastecido. E lembre-se, o problema não é o petróleo, o problema é nosso Real que se desvalorizou em demasiado devido a políticas monetárias ineficazes (Taxa Selic vs Risco País).
Temos uma carga tributária muito alta
Concordo com você. Nem me aterei a esse ponto já que, independentemente, a carga tributária também não é problema da companhia, mas do Governo.
Conclusão
Note, não estou aqui fazendo militância. Tampouco dizendo se a empresa está correta ou não em sua política de preços. Mas trazendo uma questão que, um governo populista, não irá tratar a causa ou assumir seus erros, ao contrário, ficará remediando a consequência, aquilo que lhe trouxer maior popularidade frente à população.
Se o maior custo do caminhoneiro é o Diesel. Isso é causado por dois principais fatores: (1) Alta do Dólar devido a uma péssima política monetária; (2) Altos impostos devido a uma péssima política fiscal.
Nos dois casos o problema é a gestão governamental, a companhia é somente causa dessa má gestão que se arrasta há décadas no Brasil.
Trocar a gestão da companhia, travar preços e remediar o agora, certamente gerará um problema ainda maior no futuro.
E, por esses motivos é que, apesar de termos grandes companhias nacionais, não me sinto confortável em investir em companhias estatais.
De qualquer forma. Podemos pensar em inúmeras “soluções” para o caso. A questão é que, enquanto continuarmos intervindo em companhias baseado em soluções rasas populistas, continuaremos tendo empresas estatais servindo de “marionetes”. O resultado desse tipo de intervenção:

Há ainda aqueles que podem dizer. Uso essas quedas para me aproveitar e comprar mais barato. Pois é, terá que ficar fazendo isso por um longo tempo, pois não é a primeira e nem a última grande queda de empresas desse tipo.
Espero ter colaborado com seu entendimento.
Por fim, sou Paulo Boniatti, um forte abraço e tchau!