Será que existe uma fórmula matemática, de fácil aplicação, que pode bater o mercado?
Essa é uma resposta que, segundo a fórmula mágica de Joel Greenblatt, é possível sim.
Portanto, por sugestão do Diego Klak, inscrito em nosso canal no Youtube, quero nesse artigo, demonstrar como você pode aplicar a tal fórmula mágica (magic fórmula) para identificar possíveis empresas candidatas para investimento.
Vem comigo!
Disclaimer
Esse artigo não se trata de recomendação nem indicação de como você deve investir seu dinheiro. Trata-se de compartilhamento de conhecimento.
Antes de tomar qualquer decisão, estude, compreenda, conclua e esteja seguro de seus atos.
Quem é Joel Greenblatt
Joel Greenblatt é um dos investidores mais bem sucedido de todos os tempos.
Somente para que você tenha ideia, apesar de Joel ter menos tempo de investimento se comparado ao oráculo de Omaha, Warren Buffett, ele possui uma rentabilidade média anual bastante expressiva de mais de 30% acima do índice de referência (S&P500) contra perto de 14% de Buffett.

Acredito que a imagem, por si só, nos diz o porquê não podemos ignorar Joel Greenblatt e sua fórmula mágica para bater o mercado.
Fora esse resultado fenomenal, Joel é criador do fundo de investimento hedge Gotham Capital e esteve à frente do negócio por mais de duas décadas.
A essência da fórmula
Já adianto que não gosto muito do termo fórmula mágica. Tampouco sou adepto ferrenho de seguirmos um processo automatizado. Mas como mencionei, é inegável o resultado obtido por Joel por meio de seu método, de sua fórmula.
De maneira bastante objetiva, a fórmula tem como principal objetivo a busca de boas empresas a bons preços. E como isso ocorre?
Boas empresas são encontradas por meio de rentabilidades acima da média, e bons preços são encontrados quando é possível pagar pouco frente ao lucro dessas companhias.
Em suma, a essência dessa fórmula é ordenar e ranquear as companhias por seu indicador de rentabilidade, do maior para o menor (quanto maior, mais rentável); posteriormente fazer o mesmo para o indicador de preço, mas do menor para o maior (quanto menor, mais “barata” a companhia está).
Na sequência soma-se essas duas informações ranqueadas para criar uma terceira ordenação. Aquelas empresas que possuírem as melhores pontuações serão, segundo a fórmula mágica, as top companhias.
Falarei mais em detalhes no decorrer do artigo.
Cuidado com expectativas de curto prazo
É importante ter em mente que, essa fórmula e sua filosofia de investimentos não servem para quem busca retornos de curto prazo.
Apesar de sua essência se resumir à busca de empresas rentáveis a baixo preço, não é incomum que uma carteira montada utilizando essa filosofia, passe um bom período (alguns anos) com performance abaixo de seus índices de referência (S&P500 ou Ibovespa).
Isso inclusive é um dos motivos que rebate a tese de que, se todos usassem a mesma fórmula ela deixaria de ser eficaz: poucos investidores possuem mentalidade para aguentar anos com performance abaixo do esperado.
Muitos acreditam ter o psicológico preparado para o longo prazo, mas bem na verdade, poucos realmente aguentam ver seu patrimônio investido, por anos, com rentabilidades aquém de suas expectativas. E, assim, vendem suas ações nos piores momentos, sem deixar que sua carteira tenha um processo de maturação.
Você tem estômago para isso? Pense nisso.
Por isso, investimentos em ações é longo prazo, e aplicar a magic formula também deve ser para longo prazo.
Buscando empresas
Como comentei, a essência dessa fórmula é a busca de empresas rentáveis com preço baixo. E para isso temos alguns indicadores que poderão nos ajudar.
Empresas rentáveis
Precisamos buscar as companhias com o melhor retorno sobre o capital. É sabido que existem diversos indicadores de rentabilidade, como por exemplo o ROE, ROA e o ROIC.
No apêndice do livro ele cita para mensurarmos o retorno sobre o capital por meio da proporção dos lucros operacionais antes dos impostos (EBIT) em relação ao capital tangível empregado (capital de giro líquido + ativos fixos líquidos).
De maneira bastante simples, podemos fazer um paralelo com o indicador ROIC, muito encontrado em diversos sites, como Status Invest e Fundamentus.
Segundo o autor, o objetivo de usar a relação sobre o EBIT é de trazer a essência da operação da companhia, tirando qualquer distorção não operacional.
Concordo com a abordagem, mas é importante saber que ela não contempla bancos, por exemplo. Bancos não possuem EBIT tampouco EBITDA, seus resultados são, em sua maioria, financeiros. Nesse caso poderíamos usar o ROE por exemplo.
Portanto, diante disso há uma discussão no mercado sobre o que usar: ROIC ou ROE. Ambas abordagens são geralmente aceitas, mas pondere. Saiba que, se você quiser colocar os bancos na conta, o ROE talvez seja a melhor opção.
Empresas a preço baixo
É preciso buscar companhias a preços baixos. É sabido que, existem alguns indicadores bastante utilizados como por exemplo a relação preço e lucro (P/L) como também a relação entreprise value e EBIT (EV/EBIT).
As mesmas ressalvas realizadas anteriormente com relação a bancos, faz-se também importante aqui. Caso queira incluir bancos na conta, talvez o mais prudente seja a utilização do P/L.
Novamente, pondere.
Passo a passo
Vamos a prática. No site do Status Invest, utilizando a busca avançada, você pode fazer o download de todas as empresas listadas em bolsa.

Abrindo a planilha em um software de planilha eletrônica temos o seguinte:

Para esse exemplo considerarei o ROIC e o EV/EBIT. Portanto, excluirei demais colunas.
Além disso, filtrarei companhias com liquidez diária acima de 100k e com P/L positivo (não queremos prejuízos por aqui).
Para o ROIC, atribuiremos uma nota do maior para o menor valor. Você tem duas opções: (1) ordenar o ROIC do menor para o maior e atribuir um número de 1 em 1 para cada linha; ou (2), atribuir diretamente por uma fórmula como essa “=ORDEM.EQ(B2;B:B;1)” e arrastar para as demais linhas.

Faremos o mesmo para o EV/EBIT, mas de maneira inversa. Os menores EV/EBIT receberão as maiores notas. Caso queira, segue fórmula: “=ORDEM.EQ(C2;C:C;0)”

Próximo passo, precisamos somar os pontos:

Veja acima que já somei e ordenei as companhias, pelo maior ROIC e menor EV/EBIT por meio do sistema de pontos (coluna Soma).
Obviamente você precisa ponderar alguns nãos recorrentes. Será que o ROIC apresentado é saudável? Qual o ROIC histórico da companhia? Pense nisso.
Mas note, caso queiramos fazer algo diferente, incluindo bancos por exemplo, é preciso considerarmos o ROE e o P/L. Nesse sentido, a listagem ordenada é meramente diferente. E note que, apesar disso os bancos não se classificaram entre as top empresas.

É isso? Quase isso, mas não somente isso!
Mas não é só isso
Na maioria dos textos (ou outros tipos de mídia) que tratam o tema da magic fórmula, seus autores não mencionam que a filosofia do Joel não é simplesmente ordenar empresas por alguns indicadores.
Ele mesmo cita em sua obra que um investidor superior precisa, também, analisar a companhia pela qual estará investindo. Existe muito mais que números.
Mas ainda assim, para aqueles que são crentes que basta filtrar, ordenar e comprar, Joel cita mais detalhes sobre sua estratégia.
Ele diz que uma carteira dessas deveria ter entre 20 e 30 companhias, mas que não devem ser todas elas compradas no mesmo momento.
Suponhamos um patrimônio de R$ 100 mil, você deveria dividir esse montante em 4 partes (R$ 25 mil cada parte).
- A primeira parte você deveria comprar de 5 a 7 companhias no mês 1;
- A segunda parte você deveria comprar de 5 a 7 companhias no mês 4;
- A terceira parte você deveria comprar de 5 a 7 companhias no mês 7;
- A quarta parte você deveria comprar de 5 a 7 companhias no mês 10;
Ao final de 1 ano você teria algo entre 20 a 28 companhias, e o processo reinicia-se: filtra novamente de 20 a 30 companhias e a cada 3 meses vende as companhias que foram compradas, no mesmo período do ano anterior, e as troca pelas novas empresas.
E repita isso por muito anos.
Mas é rentável?
Eis os resultados apresentados por Joel Greenblatt. Acredito que não há muito o que contestar.
| Ano | 1000 maiores ações (mais de 1 bilhão de dólares) | 3500 maiores ações (mais de 50 milhões de dólares) | S&P 500 |
| 1988 | 29,4 | 27,1 | 16,6 |
| 1989 | 30 | 44,6 | 31,7 |
| 1990 | -6 | 1,7 | -3,1 |
| 1991 | 51,5 | 70,6 | 30,5 |
| 1992 | 16,4 | 32,4 | 7,6 |
| 1993 | 0,5 | 17,2 | 10,1 |
| 1994 | 15,3 | 22 | 1,3 |
| 1995 | 55,9 | 34 | 37,6 |
| 1996 | 37,4 | 17,3 | 23 |
| 1997 | 41 | 40,4 | 33,4 |
| 1998 | 32,6 | 25,5 | 28,6 |
| 1999 | 14,4 | 53 | 21 |
| 2000 | 12,8 | 7,9 | -9,1 |
| 2001 | 38,2 | 69,6 | -11,9 |
| 2002 | -25,3 | -4 | -22,1 |
| 2003 | 50,5 | 79,9 | 28,7 |
| 2004 | 27,6 | 19,3 | 10,9 |
| 2005 | 28,9 | 11,1 | 4,9 |
| 2006 | 18,1 | 28,5 | 15,8 |
| 2007 | 7,1 | -8,8 | 5,5 |
| 2008 | -38,8 | 39,3 | -37 |
| 2009 | 58,9 | 42,9 | 26,5 |
| ao ano | 19,7 | 23,8 | 9,5 |
Mas…
Outras considerações
Há de se ponderar outras questões.
É um estudo feito nos EUA com companhias listadas nas bolsas do Tio Sam.
Apesar de muitos afirmarem que esse tipo de abordagem funciona no Brasil, há de se ponderar os riscos do nosso país. Não acho salutar aplicar essa estratégia em 100% sobre seu capital nacional.
Outro ponto também a se considerar, a tributação brasileira.
Em operações que não sejam de características de Day Trade, vendas de ações que ultrapassarem R$ 20 mil (em valor de venda) dentro de um mês, estarão sujeitas ao pagamento de imposto.
Não menos importante, pondere também custos de corretagem.
Portanto, caso seu montante seja expressivo, pondere até que ponto você pode acabar pagando uma quantia relevante de imposto.
Essa á uma estratégia que funciona? Segundo dados e fatos apresentados pelo autor em seu livro, é uma filosofia de investimentos que pode funcionar.
Mas a questão que prefiro abordar: você confia fielmente em uma lista que sugere uma relação de 30 ativos para compra que, você pouco conhece?
Lembro que já fiz um artigo com pilares que acredito serem importantes ao se analisar uma companhia. Salvo pela rentabilidade e preço, do restante pouco se vê de similaridade entre as abordagens.
Esse é um dos motivos que posso até me utilizar da magic fórmula para complementar algum estudo, mas não será minha única fonte de informação na tomada de decisão. De qualquer forma, acho válido trazer esse conceito para você.
E lembre-se, não invista em nada somente porque viu uma informação em algum site da internet. Seja responsável consigo mesmo, estude.
Espero ter agregado conhecimento.
Um forte abraço,
Paulo Boniatti