Neymar e o NFT de R$ 6 milhões, o que podemos aprender?

Inevitavelmente as NFTs (Non Fungible Token) estão cada vez mais em foco. Também pudera, no final de 2021 o cantor Eminem teria adquirido uma imagem da coleção Bored Ape por aproximadamente R$ 2,5 milhões para utilizar como foto de perfil em seu Twitter.

Bored Ape – Eminem

Mas o que chamou ainda mais atenção foi o fato de que, dias depois, o jogador Neymar teria pago aproximadamente R$ 6 milhões por uma outra imagem da mesma coleção.

Bored Ape – Neymar

Independente dos motivos que fazem alguém pagar uma quantia milionária em um cartoon de macaco, sem dúvidas é algo que chama atenção, gera diferentes sentimentos em diferentes pessoas e nos faz questionar, refletir e externalizar diversas opiniões.

O SaldoZero não se trata de um portal de fofocas, mas refletindo os casos tenho certeza que podemos tirar inúmeros ensinamentos. E, são estes ensinamentos que hoje quero compartilhar com você.

Espero como sempre poder agregar mais um pouco de conhecimento. Se este tema lhe interessa, vem comigo.

Tudo é relativo

Você acha R$ 6 milhões um montante relevante? Suponho que sim — eu também acho. Mas vamos observar por outra ótica: tudo é relativo.

Você sabe quanto o Neymar recebe, aproximadamente, por mês? Segundo dados do portal Globo.com, Neymar estará recebendo em sua nova renovação de contrato, aproximadamente R$ 2,54 bilhões em oito anos. Este montante nos dá algo próximo a R$ 26,4 milhões mensais —há quem diga que a conta pode ser maior.

Se o valor é superior a isso, não importa. O que importa é que, para quem tem uma receita mensal próxima a R$ 26,4 milhões, pagar R$ 6 milhões por uma gravura significa sacrificar 22% de, apenas, um mês de trabalho.

Se tomarmos como comparação um brasileiro que recebe R$ 3 mil mensais, seria o equivalente a R$ 680. Para um brasileiro que receba um salário mínimo aproximado de R$ 1,21 mil, seria o equivalente a pagar R$ 274 por uma gravura.

Portanto, não troquemos os pés pelas mãos. Não é porque o Neymar gastou R$ 6 milhões em um NFT de um macaco que tenhamos que colocar todas nossas economias neste tipo de objeto.

O que é perder R$ 6 milhões para alguém que recebe R$ 26,4 milhões em um mês comparado a alguém que ganha R$ 1,2 mil e acredita as economias de 1 ano ou mais em algo que pode simplesmente perder valor da noite para o dia?

Portanto, pagar um montante de R$ 6 milhões por um objeto é muito? A depender do capital que se dispõe, pode até ser pouco. Tudo é relativo. Inclusive isso nos remete ao próximo ensinamento: o valor do dinheiro.

O valor do dinheiro

Dou início a este ponto perguntando: o que faz um diamante ser tão valioso? Será que sua beleza? Talvez, até certo ponto. Mas o que o torna tão valioso é principalmente sua escassez.

É esta escassez que o torna tão importante e cobiçado. Tornam-se artigos únicos, aos quais nem todo mundo tem o privilégio de possuir um. E, se for uma peça ainda mais exclusiva em forma e tamanho, sem dúvidas, será muito mais valioso.

O que aconteceria, no entanto, se pudéssemos encontrar diamantes de maneira abundante e que possibilitasse a todos deterem ótimos exemplares? Será que tornaríamos todos mais ricos? Não, não ficaríamos mais ricos.

Com tamanha abundância o que ocorreria é que a pedra perderia sua escassez, sua exclusividade, sua cobiça e assim seu valor.

Este raciocínio vale para praticamente tudo, é o que comumente chamamos da lei da oferta e demanda. Um carro antigo, por exemplo, a depender de seu estado, por sua exclusividade pode ter muito mais valor do que um carro novo equipado da tecnologia mais atual.

Da mesma maneira acontece com o dinheiro. Não ouso a dizer que o dinheiro não tem valor para o Neymar — tampouco para qualquer outra pessoa —, mas ouso a dizer sim que, a depender da quantidade disponível, pode ter valor e significado diferentes.

Uma pessoa que receba R$ 20 mil mensais, se aumentar sua receita em mais R$ 2 mil, sem dúvidas seria algo prazeroso. Mas, se esse aumento de R$ 2 mil ocorresse para alguém que receba atualmente R$ 1 mil, seria algo muito mais impactante.

Estes R$ 2 mil são diferentes para ambas as pessoas? Em quantidade não, mas em valor sim. E está tudo bem, simples assim.

A repercussão e o sonho desmedido

Após as “polêmicas” aquisições “macaquianas”, muita gente passou a sonhar com o enriquecimento rápido por meio da compra e venda ou, da criação de NFTs autorais.

Mas pudera, a coleção de “rolex” digital, os famosos macacos da Bored Ape Yacht Club, já está avaliada em mais de bilhões de dólares.

E não para por aí, basta uma breve pesquisa para encontrar garotos que ficaram milionários vendendo gravuras de baleia em 8 bits ou pessoas ganhando montantes semelhantes vendendo suas próprias selfies.

Este movimento estimula nas pessoas os mais variados sentimentos, dentre eles o sonho do enriquecimento relâmpago. E isso não surpreende, está ligado diretamente as finanças comportamentais.

E disso precisamos abordar um viés muito importante: o viés da confirmação.

Quando desejamos muito algo, passamos a buscar incansavelmente por exemplos que confirmem aquilo que desejamos. Em nosso contexto, passamos a buscar exemplos de pessoas que ficaram ricas com NFTs.

E do contrário? Com relação as notícias que nos trazem exemplos de pessoas que perderam dinheiro com este tipo de objeto, de duas uma: ou não as buscamos, ou passamos longe da notícia. É o famoso evitar os “estragas prazeres”.

Vamos olhar com um pouco mais de atenção. Segundo o site de vendas de NFT Opensea, em abril de 2021 o valor médio de cada figura da coleção, que Neymar e outros famosos compraram, era o equivalente a ETH 0,16, cerca de R$ 2,5 mil na cotação atual. Atualmente o valor médio gira na casa dos ETH 131, ou R$ 2,096 milhões.

Bored Ape – cotação

Esta valorização corresponde aproximadamente a 81,875% no acumulado, ou 96% ao mês. Isto já basta para muita gente correr, colocar todo seu capital com o sonho de acordar milionário.

Pode até ser, mas: primeiro, quem lhe garante que você conseguirá revender sua gravura e; segundo, quem lhe garante que ela continuará se valorizando eternamente.

Para ficar mais claro, permita mostrar um outro exemplo. Recentemente um jogo NFT chamado Axie Infinity esteve muito na moda. O famoso jogar para ganhar. E ganhar de duas maneiras: (1) jogando e; (2) com a valorização dos tokens (da moeda).

Em junho de 2021 a moeda do jogo (ASX) teve seu ápice ao preço de US$ 160. Uma valorização de 106.667% em apenas 1 ano. Faça um breve exercício e busque em canais de Youtube a quantidade de vídeo falando deste jogo nesta época. Uma verdadeira febre.

O que aconteceu depois disso? Basta ver o gráfico. Uma queda de metade de seu valor, justamente no ponto aonde o sonho em enriquecer jogando Axie Infinity inflamou as redes sociais.

Axie – Cotação

A cotação da moeda vai recuperar? Quem sabe?

Mas, quantas pessoas perderam dinheiro? A maioria não quer saber. Querem saber somente das poucas que possivelmente ganharam muito.

Voltando a gravura do Neymar. Estou dizendo que ela, ou que outras da mesma coleção irão se desvalorizar? De maneira alguma. Infelizmente me falta o poder da vidência.

E tampouco é meu objetivo dizer que você irá perder dinheiro negociando este tipo de objeto ou jogando qualquer game que ofereça ganhos dentro dele. O que quero dizer é que somos sujeitos a buscar somente informações que nos confirmem algo, e não que nos contrariem, apesar de informações contrárias serem importantes para que possamos refletir o todo.

Duvide, questione e não se deixe ser iludido por alguns poucos exemplos de sucesso.

O preconceito de algo que não se conhece

Uma outra questão que gostaria de abordar: o preconceito com algo que não se conhece. Muito se fala de NFT, de jogos NFTs e afins. Mas na verdade, pouco se fala das possibilidades das NFTs.

Em linhas gerais uma NFT é um objeto que foi digitalizado dentro de uma rede blockchain, como o caso da rede Ethereum, e que não pode ser replicado. Você até pode tirar um print do NFT do Neymar para usar em suas redes. Mas, o original, será apenas um. E isso, é inviolável. Disso portanto relacionamos a questão da exclusividade e da escassez, como o exemplo dos diamantes citados anteriormente.

Mas, mais do que isso, este mundo novo que se abre é muito maior do que apenas figurinhas e jogos caros. Você pode digitalizar praticamente qualquer coisa por meio de uma NFT: arquivos, músicas, vídeos, documentos, contratos e, claro, além disso, também as figurinhas.

Este mundo é muito mais amplo do que a maioria das pessoas consegue enxergar.

Você já pensou em ter o documento de seu automóvel tokenizado como uma NFT? Você poderia por exemplo vender seu carro para outra pessoa diretamente por estas redes blockchain sem qualquer intervenção de um órgão governamental, ou sem ter que pagar taxas a cartórios, por exemplo.

E se o exemplo fosse ainda maior? E se pudéssemos ter o contrato de nosso imóvel tokenizado? Nossa casa registrada digitalmente e de maneira totalmente descentralizada. Isso seria maravilhoso!

Isto é impossível de acontecer? De maneira alguma. Tecnicamente falando as redes já suportariam. Contudo, toda uma regulamentação seria necessária por parte, infelizmente, daqueles que não querem perder o poder da centralização: os governos.

Desta maneira, assim como as NFTs de macacos ficaram conhecidas rapidamente, seu preconceito, por desconhecimento, cresceu na mesma velocidade.

Exageros, bizarrices e desconfianças sempre existirão. Mas o que precisamos é buscar entender como tudo isso pode, até certo ponto, melhorar nossa vida à medida que temos a possibilidade de reduzir, nem que pouco, a centralização de um poder governamental.

Este papo de blockchain, criptomoedas, NFTs e, também o famoso Metaverso é um mundo gigantesco, com inúmeras possibilidades que está se abrindo diante de nossos olhos.

A vida do outro não é vida minha

Mesmo sabendo que a grande parte da riqueza dos homens mais ricos do mundo veio de seu trabalho, e não de sonhos desmedidos — isso inclui Neymar que independente de qualquer coisa enriqueceu não com uma NFT, mas por sua competência em ganhar dinheiro jogando futebol —, o ensinamento mais importante que podemos tomar aqui é: a vida do outro não é vida minha.

Somos seres livres — e assim espero que continuemos a ser, caso contrário seríamos novamente escravos. O que o outro faz da sua vida, como faz e porque faz, é problema dele, simples assim.

Assim também, o que fazemos de nossa vida, é problema nosso. Somos livres para decidir o que fazer hoje. Todavia, tenha em mente que, o que decidir hoje irá resultar em seu amanhã.

As NFTs já são uma realidade, vieram para ficar e ainda têm muito a se desenvolverem, muito mais que coleções de gravuras.

Agora, cabe a nós refletir e processarmos tudo isso que vem acontecendo. Discernimento sempre.

Espero ter agregado um pouco mais de conhecimento.

Sucesso e prosperidade sempre.

Paulo Boniatti

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