É exatamente o que digo no título: você muito provavelmente vai perder dinheiro na bolsa se continuar a focar no tempo errado.
Não entendeu? Vou explicar. Já ouviu alguém dizer que, ao investir na Bolsa de Valores é preciso focar no longo prazo? Imagino que sim, até porquê é uma orientação um tanto clichê.
Mas, hoje quero te mostrar esse argumento por uma ótica diferente. Tenho certeza que, após esse texto, ficará muito mais claro de compreender o porquê é preferível optar pelo longo prazo ao invés de buscar retornos rápidos de curto prazo.
Volatilidade não é o problema
Você já deve ter ouvido alguém falar sobre o tema volatilidade. De toda forma, volatilidade nada mais é que o quanto algo varia sobre um ponto central.
Trazendo isso para o mercado financeiro, seria o quanto um ativo — uma ação por exemplo — tem sua cotação variando para cima ou para baixo. Quanto maior a volatilidade, maior são suas variações de preço no mercado.
Mas, volatilidade por si só não é um problema. Uma ação que oscila em demasia não pode ser intitulada como um ativo ruim. O que define a qualidade de um ativo são outras questões.
O problema maior da volatilidade é como o investidor reage a ela. Gosto de comparar volatilidade com uma montanha russa. Há pessoas que não se importam com o sobe e desce do carrinho — até gostam. Do outro lado, há quem não se submeta aos frios na barriga.
O mesmo acontece com a volatilidade e os investidores. Assim como a volatilidade pode causar medo para alguns, pode despertar interesse para outros, uma vez que, em grandes quedas podem surgir boas oportunidades.
E isso serve tanto para ações, fundos imobiliários, etfs, bdrs e qualquer outro tipo de ativo. Volatilidade não é um problema.
Há como ganhar dinheiro no curto prazo?
Outra questão que gostaria de abordar — antes de tratar o ponto central deste artigo — é sobre a possibilidade de ganhar dinheiro no curto prazo.
É possível ganhar dinheiro no curto prazo investindo em ativos da Bolsa? Sim, é possível. Mas é pouco provável para a maioria das pessoas.
Não nos deixemos iludir. Focar no curto prazo, apesar de possível exige uma experiência e dedicação grande daqueles que estão negociando na Bolsa. Assim como todo bom profissional, aqui também deve ser encarado como um trabalho.
De todo modo, diversos estudos já confrontaram estratégias que focam no curto prazo — e não é meu objetivo estender este tema aqui.
Os tempos de alta da bolsa
Muita gente que começou a investir na Bolsa em 2021 deve estar recebendo um não tão feliz boas-vindas. Também pudera, até o dia em que escrevo este texto, o Ibovespa vem amargando uma queda de -10% no acumulado do ano.
Aqueles que acreditaram em promessas fáceis, no enriquecimento rápido devem estar confirmando que as coisas não são tão bem assim.
E vejamos. Em 2021, de janeiro até 11 de novembro, nós tivemos 206 dias de pregão, dentre os quais, 105 de alta e 101 de baixa. Isso nos diz que, somente, cerca de 51% dos pregões do ano terminaram positivos.
Quem olha de fora pode pensar que este é o verdadeiro jogo cara e coroa — 50% de chance para cada lado. No curto prazo é quase isso mesmo.
Só que, o cenário pode ser ainda pior se analisarmos o mensal. Destes 11 meses, somente 4 terminaram positivos — menos de 36%. É, ou não é de chamar atenção?
Contudo, nem tudo são espinhos. Muito pelo contrário. A história nos mostra que há muito mais flores quando as deixamos desabrochar.
Vejamos o seguinte. Se considerarmos um período maior, a história pode ser outra. Analisando o histórico de nossa bolsa desde janeiro de 1995 — praticamente 27 anos — nós tivemos:
- 52% de 6,634 mil dias de alta;
- 56% de 322 meses de alta;
- 69% de 26 anos de alta.
Isso é suficiente para concluirmos que é positivo investir em Bolsa? De maneira alguma. Até porque, 69% dos anos fecharem em alta não nos diz que as altas foram suficientes para compensar as quedas. Como vimos no último artigo, as quedas tendem a ter um impacto maior que as altas: Seja um investidor inteligente — dê mais atenção as possíveis perdas.
Contudo, anos por si só ainda representam curto prazo.
E que tal então olharmos para um intervalo maior de 5 e 10 anos? Será que investir em períodos mais longos é realmente mais interessante?
Neste sentido, fiz um estudo mais detalhado e comparei a performance do Ibovespa de 5 e 10 anos sequenciais. Em outras palavras, analisei a performance de 1995 até 2000 (quinquenal) e 1995 até 2005 (decênio), depois de 1996 até 2001 (quinquenal) e 1996 até 2006 (decênio) e assim por diante. Foram 17 períodos distintos:
| início | Até: quinquênio | Até: decênio | Ibov início: quinquênio | Ibov fim: quinquênio | Performance: quinquênio | Ibov início: decênio | Ibov fim: decênio | performance: decênio |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1995 | 2000 | 2005 | 4098 | 16599 | 305% | 4098 | 34541 | 743% |
| 1996 | 2001 | 2006 | 4682 | 14265 | 205% | 4682 | 44445 | 849% |
| 1997 | 2002 | 2007 | 6998 | 11600 | 66% | 6998 | 62892 | 799% |
| 1998 | 2003 | 2008 | 10607 | 23532 | 122% | 10607 | 41519 | 291% |
| 1999 | 2004 | 2009 | 7111 | 24848 | 249% | 7111 | 70240 | 888% |
| 2000 | 2005 | 2010 | 15851 | 34541 | 118% | 15851 | 70318 | 344% |
| 2001 | 2006 | 2011 | 16599 | 44445 | 168% | 16599 | 59365 | 258% |
| 2002 | 2007 | 2012 | 14265 | 62892 | 341% | 14265 | 63312 | 344% |
| 2003 | 2008 | 2013 | 11600 | 41519 | 258% | 11600 | 50981 | 339% |
| 2004 | 2009 | 2014 | 23532 | 70240 | 198% | 23532 | 47517 | 102% |
| 2005 | 2010 | 2015 | 24848 | 70318 | 183% | 24848 | 42419 | 71% |
| 2006 | 2011 | 2016 | 34541 | 59365 | 72% | 34541 | 61814 | 79% |
| 2007 | 2012 | 2017 | 44445 | 63312 | 42% | 44445 | 77995 | 75% |
| 2008 | 2013 | 2018 | 62892 | 50981 | -19% | 62892 | 91564 | 46% |
| 2009 | 2014 | 2019 | 41519 | 47517 | 14% | 41519 | 117707 | 184% |
| 2010 | 2015 | 2020 | 70240 | 42419 | -40% | 70240 | 119223 | 70% |
| 2011 | 2016 | 2021 | 70318 | 61814 | -12% | 70318 | 107225 | 52% |
O resumo deste exercício nos mostra que. Horizontes de investimentos de 5 anos, terminaram positivos por durante 82% das vezes. Já para períodos de 10 anos, o resultado foi ainda melhor, 100% dos períodos analisados terminaram de maneira positiva.
O que nos mostra que, na grande maioria das vezes, para evitar rentabilidades negativas na Bolsa, basta fazer absolutamente nada mais do que, simplesmente deixar o investimento maturar por alguns anos.
Portanto, ao pensar sobre curto e longo prazo, lembre-se, a história nos mostra que temos:
- 52% dos dias de alta;
- 56% dos meses de alta;
- 69% dos anos de alta;
- 82% dos quinquênios de alta;
- 100% dos decênios de alta.
Considerações finais
É possível ganhar dinheiro na Bolsa no curto prazo? Sim, mas pouco provável. Focar no curto prazo, como vimos, irá aumentar a probabilidade de dias ruins.
De outro modo, focar em períodos mais longos como 5 e 10 anos aumentam as probabilidades de retornos positivos.
No entanto, este estudo não comprova que o mesmo comportamento pode ocorrer em ativos pontuais. Quando feito o Stock Picking (selecionar empresas pontualmente), apesar de em intervalos de mais longo prazo termos menores volatilidades, não adianta simplesmente deixar o investimento maturar, caso esse não seja de qualidade.
Portanto, a chave para um investimento de Bolsa menos imprevisível é destinar o capital à bons ativos visando o longo prazo.
Deixo aqui uma recomendação de leitura para quem busca como escolher boas empresas para o longo prazo: Os pilares que envolvem a escolha de uma Ação na Bolsa de Valores.
Espero ter agregado conhecimento.
Como sempre lhe desejo todo sucesso e prosperidade que sei que você merece.
Por fim, sou Paulo Boniatti. Um forte abraço e tchau!