Câmara: Proposta quer congelar preço de itens da cesta básica. Saiba porque esta é uma péssima opção

A falta de conhecimento econômico por parte de diversos políticos é assustadora. Nesta última semana — sem citar nomes —, começou a transitar no congresso um projeto de lei com o objetivo de barrar o aumento de preços de itens da cesta básica.

Calma! Antes de qualquer conclusão precipitada, vamos entender o todo. E mais uma vez, meu objetivo não é tirar os méritos da proposta, mas sim de entendermos o todo e o impacto que uma medida dessa pode causar.

O que é o projeto

Sem me ater a detalhes, o objetivo principal é tentar frear o aumento de produtos que compõe a cesta básica. Uma das justificativas é o aumento do preço do arroz, já que, de acordo ao relator, houve recorde de produção na última safra.

Sem muito esforço de contra-argumentação, precisamos entender que, o arroz é uma commoditie. Quem já investe a algum tempo em bolsa de valores deve se lembrar de diversas empresas produtoras de commodities. Esse termo resumidamente se dá a produtos que são iguais mundialmente (o petróleo brasileiro é igual ao saldita e assim por diante), e por esta razão são cotados em Dólar. Tendo como base a desvalorização do Real frente a moeda americana, já podemos entender, portanto, o porquê parte do encarecimento de produtos básicos.

O problema do tabelamento

Você pode estar cético, acreditar e justificar a necessidade de um tabelamento emergencial. Não quero com este artigo entrar em um embate ferrenho, mas sim ponderar questões que supostamente muita gente não se dá conta.

Se coloque na posição de um empresário — tirando qualquer viés se pessoas assim são boas ou não, e que não vem ao caso. Um empresário, produtor de arroz vamos supor, tendo custos de produção elevados devido a inflação — sim, empresários também sofrem de inflação (como o petróleo que é outra commoditie) —, se vê tendo um custo elevado e sem a possibilidade de repassar este custo para seus compradores — devido ao tabelamento de preços. Maior custo e menor receita gera uma menor rentabilidade — menos lucro.

Agora, continuando, este mesmo empresário, que vê suas margens apertadas, com cada vez menos lucros, e com possibilidade de produzir outro produto qualquer que seja — com rentabilidade supostamente maior —, vai preferir: (1) continuar a produzir um produto com cada vez menos rentabilidade?; ou (2), buscará por opções mais rentáveis? Supostamente irá optar pela opção 2.

Desta forma, entenda que, quanto maior é o tabelamento, maiores serão as chances de produtores/empresários deixarem de produzir tais produtos, ocasionando gradativamente um desabastecimento. Neste sentido, lei da oferta e demanda: se tenho uma demanda mantida (o povo precisa se alimentar) e tenho uma oferta reduzida (menos produtos disponíveis), a inflação fica cada vez mais evidente tornando-se uma verdadeira bola de neve. Sem considerar ainda que, em caso de desabastecimento, e com a força de preço causada pela falta de produto, o governo seria obrigado a importar produtos, e, com o Dólar altíssimo no cenário atual, o resultado você já deve compreender.

Tabelamentos históricos

Se tudo isso que comentei ainda não foi suficiente para lhe dar uma visão mais clara do problema. Vejamos alguns exemplos históricos:

Em 15 de agosto de 1971, por exemplo, o presidente americano Richard Nixon anunciou o congelamento de preços. Dentre as medidas, os Estados Unidos estabeleceram o preço máximo de gasolina, o que gerou um excesso de demanda, longas filas nos postos de combustíveis e escassez do produto.

E no Brasil? Você deve estar se perguntando. Os mais antigos devem se lembrar do ex-presidente José Sarney. Na ocasião existiam os “fiscais do Sarney”: cidadãos brasileiros que denunciavam mercados e afins quando estes não respeitavam o tabelamento de preços. O que parecia ser bom em um primeiro momento, acarretou em um verdadeiro desabastecimento. O fato, forçou o Governo a trocar a moeda da época e liberar os preços, voltando a sofrer novamente de hiperinflação.

Conclusão

Portanto, a solução de tabelamento de preços é um verdadeiro tapar o sol com a peneira.

O que é necessário, é uma política econômica mais eficiente, e principalmente controle e redução da dívida pública.

E como a dívida pública poderia ajudar nisso? Simples, com um controle da dívida, menor a necessidade de dinheiro por parte do governo. Com mais dinheiro em caixa, melhores políticas monetárias e fiscais seriam possíveis e poderiam ajudar, não só a impulsionar o crescimento do país como um todo, mas principalmente em segurar a enxurrada de Dólar saindo do Brasil por investidores.

Não quero alongar, mas, se maior oferta de Dólar, lei da oferta e demanda, o preço do ativo tende a cair. Se Dólar mais baixo, afeta toda a cadeira produtiva e certamente teríamos uma questão de preços melhor controlada. Para este caso, sugiro também que leia este outro artigo que dou uma visão melhor do comportamento de Taxa Selic, Pib, Câmbio e IPCABOLETIM FOCUS – Entenda-o e pare de tentar adivinhar o futuro do mercado.

Bom, espero ter consigo ajuda-lo a entender que a solução não se passa por tabelar preços.

E por fim, sou Paulo Boniatti, aquele abraço, até o próximo vídeo e tchau!

Escritor, autor do livro Montando uma Carteira de Investimentos Inteligente. Paulo Boniatti é pós-graduado em Gestão em Mercado Financeiro pela FAE Business School. Especialista em investimentos e adepto da filosofia do antifrágil, tem como principal característica a maneira simples e descomplicada de explicar o mercado financeiro. Além de youtuber e criador do canal SaldoZero, é também gestor do Clube de Investimentos Opportuna CI.

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